Sozinhos
Ao iniciar sua narrativa de morte, Tatiana Cristina dos Santos, 38, avisa: “Fiquei fria, não choro mais, não sinto mais nada. Dor nenhuma”. Então começa a chorar ao falar dos sobrinhos. As crianças de 7 e 14 anos vivem com o irmão mais velho de 21 anos, em Arapoanga. Os três ficaram órfãos de pai e mãe em maio de 2019.
Tatiana perdeu a irmã Jacqueline dos Santos e quis criar os sobrinhos como filhos. O trabalho pesado de copeira não permitiu. Hoje, a mulher ajuda os meninos como pode. Faz uma visita, leva um bolo e lembra de contar histórias da mãe deles.
O mais velho, Jeferson* decidiu que ficaria com os irmãos vivendo na mesma casa onde foram criados. Apesar do apoio da família, as crianças ainda sofrem as consequências da morte violenta da mãe. Distúrbio alimentar, insônia e depressão são alguns dos transtornos que os meninos adquiriram.
“Eu não queria que eles ficassem sozinhos, mas o irmão mais velho decidiu assim. Todos eles precisavam de terapia, um acompanhamento para superarem o trauma, mas eles não aceitam. Para a gente, é um baque, todo dia, uma paulada. Somos presentes na vida deles, mas ninguém substitui o lugar da mãe”, comenta Tatiana, irmã de Jacqueline.
A gari Jacqueline dos Santos foi morta pelo ex-companheiro com três facadas na barriga. Após o feminicídio, o assassino de Jacqueline, Maciel Luiz Coutinho, fugiu e cometeu suicídio. A história violenta deixou dois cadáveres e três órfãos.
Segundo Tatiana, as crianças presenciaram uma série de violência que a mãe vinha sofrendo do companheiro. Para livrar-se do homem, Jacqueline divorciou-se e pediu medida protetiva. Alterado, Maciel foi até a casa da ex-mulher e disse que a medida protetiva não vigorava mais.
Para dar fim às dúvidas, a vítima decidiu perguntar aos policiais que faziam ronda na rua se seria possível um juiz retirar uma medida protetiva sem o conhecimento da mulher ameaçada.
Jacqueline estava com o papel na mochila, retirou-o da bolsa e mostrou aos policiais. Eles confirmaram que a ordem da Justiça continuava válida. A gari dobrou a medida protetiva, guardou-a no bolso de trás da calça do uniforme laranja e seguiu para casa. Não deu tempo de se despedir dos filhos.
“Até minha irmã morrer, essas crianças sofreram demais. Todas viram a mãe apanhar. O pai também era agressivo com eles. Hoje, meu medo é que eles repitam tanta violência”, lamenta Tatiane.
Hoje, o filho mais velho de Jacqueline é casado e tem um filho de dois anos. Ele cria o menino junto dos irmãos como filhos. O mais novo, de 7, sofre de obesidade infantil e não se lembra da mãe. O de 14 abandonou os estudos e diz sentir mais falta do pai.
“Eles dão razão ao pai. O mais velho acredita que a mãe pode ter feito algo para merecer o que aconteceu, e todos agora acreditam nisso. Eu não tento mudar a cabeça deles, mas faço questão que lembrem a mãe maravilhosa que tiveram. Toda oportunidade de falar dela, eu falo”, ressalta Tatiane.
Jacqueline é lembrada por “viver para os filhos”. Tudo que mais desejou em vida era que as crianças entrassem na faculdade de direito. “Era tudo para ser doutor, pela vontade dela”. Sem ter tempo de estudar, a mulher trabalhava como gari mas sonhava em fazer direito. Achava que não sobraria vida para isso, e por isso sonhava com o futuro dos filhos.



Tatiana, 38, mostra a foto da irmã
Arquivo pessoal
Tatiana, 38, irmã de Jacqueline, que agora dá suporte aos sobrinhos
Arquivo pessoal
Tatiana, 38, mostra foto da irmã
Arquivo pessoal
Os filhos que ficaram
Despedida