Despedida
Agarrada nas pernas da tia, Amanda* passou a pequena mão no caixão da mãe. A garota de nove anos segurava uma rosa vermelha que mais tarde jogaria no buraco de terra onde veria a mãe sendo enterrada. Os três irmãos mais velhos da garota preferiram observar de mais longe o último adeus que a família dava à vítima de feminicídio. Após o corpo ser velado, os quatro órfãos abraçaram-se e choraram.
Nenhum idioma tem nome para quem perde a mãe tão jovem. Pedro*, de 19 anos, Lucas*, 16, Samuel*, 11 e Amanda*, 9, não foram ensinados a se despedirem daquela que os pariu. A dor para os quatro é ainda maior: eles perderam a mãe e o pai no mesmo dia. A mãe morreu estrangulada. O pai foi preso por cometer o crime.
Para não dividirem as crianças, um tio paterno decidiu que pediria a guarda dos quatro e conseguiu logo depois. Desde março de 2022, em um quarto pequeno sem janelas, os órfãos dividem o espaço onde dormem com mais quatro primos com as mesmas idades. Eles, que acumularam perdas, depois ganharam mais irmãos.
Mesmo com o quarto cheio, todas as noites Amanda e Samuel choram pedindo para voltar para casa. A dor que os devasta é deixada pela saudade que sentem de serem ninados pela mãe antes de dormir. Os mais velhos anularam a morte da genitora e falam sobre ela como se a mulher tivesse fazendo uma viagem e logo irá retornar.
O tio que os cria como filhos nunca escondeu que o pai deles teria cometido o crime, mas o homem prefere guardar os detalhes consigo. “A ideia é que quando o pai deles saia da cadeia, daqui a alguns anos, as crianças possam decidir se vão querer voltar a ter relação com o pai ou não. Eu não posso decidir isso por eles. Eles já sofrem demais, não posso alimentar um ódio dentro do coração de pessoas tão jovens”.
As crianças nunca quiseram visitar o pai na cadeia. Entre eles, o homem é tratado no verbo passado, como se tivesse morrido. Entre tantos traumas, os órfãos tentam seguir uma rotina parecida com aquela que tinham quando o pai ainda não tinha matado a mãe. Todos estudam e os mais velhos trabalham. O horário para dormir é o mesmo, às 20 horas, mas os olhos lacrimejados demoram a pregar.
“Eu posso dar tudo de melhor que eu tiver para as crianças, mas nada vai apagar a falta da mãe. Eu não posso trazê-la de volta. Eles vão estar para sempre com essa dor no peito, vão sempre carregar esse sentimento de terem perdido tudo”, disse o tio.
Pela pequena casa, as crianças espalharam porta-retratos da família que foi devastada pela morte violenta. Mais de seis meses depois, as crianças ainda não se sentem confortáveis para falar da morte da mãe.
Pedro, o mais velho, lembra de quando acordou na manhã daquela segunda-feira (21/3) com o barulho da sirene da polícia na porta de casa em Arapoanga, em Planaltina (DF). Assustado, o jovem saiu do quarto e encontrou o tio, junto dos policiais, acordando os irmãos mais novos. As crianças saíram pela porta da frente da residência, de pijamas e descalças, e foram colocadas no carro do tio. É a última coisa que Pedro se lembra do pior dia de sua vida.
“Um policial veio em minha direção, pegou no meu ombro e disse que minha cunhada ainda estava viva. Hoje, na verdade, acho que ele disse isso porque viu que o Pedro estava escutando e não queria que ele soubesse que a mãe tinha morrido daquela forma. Joana já estava morta naquela hora”, lembrou o tio das crianças.
Joanna Santana Pereira dos Santos morreu aos 41 anos. Por todos os que a conheciam, a comerciante era lembrada por ser “boa esposa”, “boa amiga” e, principalmente, uma “boa mãe”. A mulher partiu antes de poder conhecer a namorada do filho mais velho, de poder ensinar a única filha a usar um absorvente, de ver Samuel formar-se na 5ª série e de assistir Lucas ganhando medalha na natação.
Joanna morreu de “morte matada”, como contam os filhos. No domingo (22/3), a comerciante estava de pijamas pronta para dormir, quando discutiu com o marido Silvestre Pereira de Araújo, 44. O homem a matou estrangulada por volta das 21h e, somente às 5h, ligou para o irmão contando que havia “feito merda”. Silvestre pediu para que o irmão buscasse as crianças, pois cometeria suicídio e não queria que os pequenos presenciassem.
Preocupado, o irmão de Silvestre ligou para o polícia e chegou junto aos militares, impedindo que o autor cometesse suicídio. Joanna morreu, Silvestre foi preso e os quatro órfãos ainda tentam sobreviver.
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“Foi crueldade. Dói pensar que meu irmão passou a noite com a esposa morta dentro do quarto. A gente nunca acredita que um irmão da gente possa fazer uma coisa dessas. Joanna não teve uma chance, as crianças não tiveram uma chance e nós ainda pagamos por isso”, comenta o tio.
Um mês após o ocorrido, Amanda foi diagnosticada com terror noturno, distúrbio de sono classificado por manifestações comportamentais alteradas. A menina não consegue dormir e tem pesadelos frequentemente. Samuel, de 11, passou a ter crises de ansiedade. Lucas, de 16, teve dificuldades na escola e ficou de recuperação em todas as matérias.
Preocupado com a saúde mental dos sobrinhos, o tio marcou sessões de terapia que não podia pagar. A prioridade é evitar mais sofrimentos na vida das crianças que perderam a mãe assassinada.

Biografia do Instagram de Joanna.
Reprodução redes sociais

Foto que Joanna postou no Instagram em 31 de dezembro de 2021
Reprodução redes sociais

Amanda desenhou ela e a mãe juntas segurando balões de coração.
Arquivo pessoal

De lápis azul Amanda desenhou o irmão Pedro. De rosa, ela desenhou a mãe.
Arquivo pessoal
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